O Verme, “processo de metabolismo com a natureza”

O Verme

A crescente ocorrência de fenómenos climáticos extremos das últimas décadas tem aparecido sob a designação “alterações climáticas”. A expressão é algo neutra mas não impediu que progressivamente se fosse ganhando uma consciência pública de que estas não são apenas ligeiras oscilações nos padrões naturais da bioesfera, mas têm a sua causa mais profunda na acção da sociedade humana. Há uma relação entre sociedade e natureza justamente porque elas não coincidem de modo imediato mas antes se condicionam reciprocamente, e de um modo que é cada vez mais evidente. Por isso, a sociedade também não é simplesmente natureza, mas “processo de metabolismo com a natureza” (Marx). Os seres humanos são, quando muito, aquela parte da natureza que ganhou distância dos processos naturais imediatos através da mediação da consciência. O “processo de metabolismo com a natureza” é, por isso, um processo simultaneamente natural e social, o que significa que os seres humanos não estão nem destinados à harmonia imediata com a natureza, nem fatalmente condenados como espécie a levar a cabo a sua destruição.

 

Mas se é certo que esse distanciamento que está na base da cultura humana se tem realizado através do “domínio sobre a natureza”, também parece ser evidente que os seres humanos não têm tido consciência dos próprios pressupostos que orientam essa dominação. Os seres humanos têm dominado a natureza, inconscientes do carácter irracional e destrutivo das formas desse domínio, e que são, na realidade, a expressão da irracionalidade das suas próprias relações sociais. Assim, todas as sociedades até hoje foram de algum modo irracionais, o que não significa que os efeitos colaterais de destruição ambiental sejam colocados lado a lado de modo inteiramente acrítico.

 

 

O VermeAs destruições levadas a cabo nas sociedades pré-modernas possuiam um carácter casual, local ou regional, e, na verdade, somente a sociedade moderna capitalista, ao colocar o dinheiro e o trabalho como fundamentos da integração social, gerou uma dinâmica histórica de transformação social cegal de escala verdadeiramente planetária, inteiramente desconhecida nas sociedades do passado. Não se trata meramente dos efeitos das técnicas industriais de produção em si mesmas, mas antes da organização social específica que traz essas técnicas consigo e que tem por base e finalidade uma forma de “riqueza abstracta” (Marx): o dinheiro. Desse modo, as forças produtivas têm se mostrado também como brutais forças destrutivas. Não é à toa que a sociedade capitalista é única a conhecer crises de sobreprodução e também não é por acaso que as crises ecológicas e as crises económicas andam de mãos dadas: a sociedade capitalista não assenta no preenchimento das necessidades sociais e culturais humanas, mas no dispêndio de energia humana na produção do maior número de mercadorias no menor tempo possível, com objectivo último de transformar um euro em dois. Esse objectivo absolutamente insano, que é hoje o de uma sociedade verdadeiramente mundial, poderá implicar tanto o esgotamento de matérias primas a montante da produção como a posterior destruição de mercadorias excedentes invendáveis (não esquecendo que o seu lado de bens consumíveis é já tantas vezes duvidoso, como a degradação alimentar tão bem demonstra).

 

O VermeEste processo de destruição específico de dupla face progrediu de um modo relativamente lento entre a primeira revolução industrial e os meados do século XX. Apesar dessa lentidão relativa, dele fizeram parte também momentos de rápida devastação de diversos ecossistemas por todo o mundo, sobretudo quando a expansão da lógica do capital de externalização dos custos se encontrava vinculada a projectos imperiais e de colonização. Mas foi a partir de 1945, e sobretudo com a globalização das últimas décadas, que os efeitos devastadores foram ganhando contornos cada vez mais vastos até chegarem à sua dimensão planetária. Faz por isso sentido que ao mesmo tempo que o modo de produção irracional do capitalismo começa a atingir o seu limite sócio-económico, com a agudização das contradições associadas à mais recente revolução industrial da microelectrónica, se vislumbre também os seus limites ecológicos absolutos. O que se manifesta de um lado como desemprego estrutural, miséria em massa, degradação das infraestruturas sociais, etc., manifesta-se também do outro como perda da biodiversidade, desflorestação, gases-estufa, etc., e a crítica do nexo entre os dois tipos de fenómenos teima em permanecer um tabu.

 

Todo o tipo de discursos ideológicos foram assim surgindo nas últimas décadas, a maioria das vezes criticando os efeitos devastadores mas deixando intocável a lógica destrutiva subjacente do dinheiro e que se vai mantendo como um pressuposto inquestionável. O discurso do “desenvolvimento sustentável” procura resolver a quadratura do círculo de compatibilizar a indiferença devastadora do dinheiro com o conteúdo material e sensível dos recursos. O mundo académico procura alimentar esse discursos com expressões absurdas como a de “capital natural” ou “serviços ecológicos”, supostamente desempenhados gratuitamente pela natureza. Até a reflexão de Marx sobre “o processo de metabolismo com a natureza” se vê agora recuperada e deturpada pelo discurso da “economia circular”, fazendo-se mais ou menos de conta que o objectivo do modo de produção capitalista não é a valorização ilimitada do dinheiro mas antes a produção equilibrada de bens materiais. De um modo ainda mais preocupante, fala-se de geoengenharia de emergência, de intervenções directas e em larga escala no próprio clima, mas cuja extrema complexidade, não-linearidade e elevado grau de indeterminação implica riscos absolutamente catastróficos. Esta “fuga para a frente” do carácter irracional do sistema convive por isso também muito bem com a cultura da “sociedade do risco” e o capitalismo casino.

O que se torna cada vez mais evidente quando se olha para a sociedade capitalista no seu todo como um sistema historicamente dinâmico e verdadeiramente mundial é que as medidas de protecção ambiental custam dinheiro, e para poder ganhar esse dinheiro é preciso provocar mais destruições, e nenhuma reflexão que ignore esse nexo poderá ser verdadeiramente crítica. Podemos tentar esquecer as alterações climáticas, mas podem ter a certeza que as alterações climáticas não se vão esquecer de nós. Não vai ser fácil sairmos daqui.